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A síndrome do intestino irritável

Apesar do nome extenso sugestivo de alguma doença rara ou grave, a síndrome do intestino irritável (SII), nada mais é que um conjunto de sintomas comuns, que acometem um grande número de pessoas, sendo a responsável por muitas consultas médicas.

A síndrome do intestino irritável é uma doença funcional, ou seja, uma alteração do funcionamento dos intestinos sem uma lesão orgânica associada.

As pessoas com SII, em geral apresentam dores ou desconforto abdominal (que podem acometer todo o abdômen ou mais comumente localizada no lado esquerdo da barriga), sensação de “estufamento” e gases, dificuldade para evacuar (intestino preso) ou diarréia ou ambos, sensação de urgência para evacuar ou de evacuação incompleta, etc. Alguns fatores como o stress, a ansiedade e as tensões emocionais podem desencadear ou agravar o problema; assim como alguns pacientes referem que alguns tipos de alimentos como leite e derivados, condimentos e a ingestão de álcool entre outros, também influenciam. Os sintomas acompanham os pacientes por longos períodos e são mais comuns em mulheres na idade adulta ( apesar de poder acometer ambos os sexos em qualquer idade).

Infelizmente, no Brasil não temos muitos dados relatados sobre a prevalência da doença na população, porém tomamos por base estudos que demonstram entre 15% à 20% de pessoas com o problema nos EUA e Inglaterra, chegando à mais de 50% na Dinamarca.

Para se ter uma idéia da importância da SII, estima-se que 40% à 50% das consultas médicas nos EUA e na Inglaterra são devido problemas funcionais, no entanto apenas um terço à metade das pessoas que apresentam os sintomas da SII procuram um gastroenterologista, e quando o fazem é porque estão preocupadas em estarem com alguma doença mais grave. Como os americanos gostam de transformar tudo em cifras, eles consideram que os custos diretos (entre consultas, exames e medicamentos) sejam em torno de oito bilhões de dólares anuais, podendo chegar à 40 bilhões de dólares se forem considerados custos indiretos como afastamento ao trabalho e queda na produtividade já que a SII é considerada a segunda maior causa de afastamento ao trabalho nos EUA, só perdendo para o resfriado.

O desconforto e mal estar que a prisão de ventre, o estufamento ou as crises de diarréia podem causar é tão grande, que estudos comparam a qualidade de vida dessas pessoas tão comprometida quanto à de indivíduos que sofrem de asma ou problemas cardíacos.

A comunidade médico- científica reconhece o problema, tanto que num evento realizado em 1998 em Roma, estabeleceu- se um consenso conhecido como os "Critérios de Roma para o Diagnóstico da Síndrome do Intestino Irritável", o qual foram enfocados todas suas características como uma maneira de auxiliar o médico em seu diagnóstico.

A própria Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) há aproximadamente um ano e meio tentou divulgar na mídia a patologia com o objetivo de levar ao conhecimento da população, no entanto não sei dizer qual foi o sucesso obtido. Mesmo agora em setembro, no Congresso Mundial de Gastroenterologia, ocorrido em Montreal no Canadá, foi tema de várias apresentações.

É importante salientar, entretanto, que apesar dos sintomas serem comuns, o diagnóstico da SII nem sempre é simples (tanto que é tão estudado mundialmente), devendo sempre ser feito por médico, principalmente porque muitos dos sintomas podem aparecer em doenças mais graves, cabendo ao especialista diferenciá-la; em outras palavras, sangramento anal ou nas fezes, emagrecimento, início recente dos sintomas, febre e etc, não são sintomas da SII, e se estiverem presentes são considerados sinais de alarme que devem ser investigados o mais precocemente possível .

Conseqüentemente aos diversos estudos, o tratamento também avançou, e hoje em dia existem medicamentos específicos para a SII que melhoram muito os sintomas, além de orientações dietéticas e mudanças no estilo da pessoa, contribuindo muito para uma melhora na qualidade de vida.

Resumindo, existe um problema chamado Síndrome do Intestino Irritável, que é benigno, freqüente e causa muitos sintomas desagradáveis piorando a qualidade de vida de um grande número de pessoas, que simplesmente se procurassem um médico poderiam diagnosticar, tratar e viver mais felizes.